Ouviu o despertador tocar, uma, duas vezes, não fez sequer um movimento, permaneceu estático em sua cama, entre lençóis, travesseiros e cobertas, a distância entre o colchão e o chão era grande demais naquele momento. Fazia frio lá fora, um frio que envolvia medos e dúvidas, e não importava se era dia de entregar o relatório ou ir na consulta marcada, dali não se moveria facilmente. Lá fora o carro buzinava, como se o chamasse, esperando por ele pra engatar a chave e dar a partida, o portão esperava pra ser aberto, e o jornal jogado na garagem tinha sede por lhe mostrar as noticias matinais. Não se importava, nem o carro, nem o portão, tão pouco o jornal faziam sentido, ele estava com febre, uma febre estranha, diferente das outras, o termometro não apontava o problema, mas sabia que ali dentro dele, em algum lugar, estava a febre. Sentia ausência de sonhos no travesseiro e calor nas cobertas, sobrava espaço no colchão, e faltava animo pra calçar as pantufas que o esperavam em baixo da cama, a distância entre o colchão e o chão não parava de aumentar, sua febre interna já passava dos 40 graus, no entanto por fora permanecia o mesmo, e era o mesmo a muito tempo, talvez esse fosse o problema. Ousou ter coragem de enfrentar a distância que separava seus pés do chão, os ponteiros de seu relógio corriam desgovernadamente, ainda haveria tempo de entregar o relatório? E a consulta marcada, haveria como chegar no horário? Levantou-se, superou a distância entre os pés e o chão, apressou-se em correr, alarme falso, não se dispôs a trocar de roupa, nem arrumar a cama, era apenas vontade de ir ao banheiro.
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